Iran Thieme
NÃO GOSTO DE TROTES!
Iran Thieme conhecido como Santos no programa do Ratinho ao falar sobre sua carreira e trajetória de vida menciona que não gosta de brincadeiras por telefone.

Conhecido pelo humor afiado e pelas pegadinhas por telefone, Iran Thieme, intérprete do Santos no programa do Ratinho, revela um lado que poucos conhecem sobre si, sua carreira e os bastidores da televisão.
“Eu acho o trote uma bosta, não tem nada de arte”, dispara. Apesar da fama ligada às brincadeiras, o humorista é firme ao dizer que não gosta de trotes.
Entre reflexões sobre sua trajetória, arte e superações, Iran mostra como o bom humor e a força de vontade o impulsionam a ser uma pessoa e um profissional melhor. “Fico feliz quando conto uma piada e um ou dois me dizem: ‘deixei de tirar minha vida por sua causa’. Não preciso de quantidade, mas de fazer a diferença”, afirma.
Para muitos, você é conhecido pela leveza, pelo sorriso, pela felicidade que você traz às famílias. Mas sabemos que, além disso, todo mundo tem uma história e vivências únicas. Queremos saber: Para você, quem é o Iran Thieme?
Eu comecei muito cedo na arte, porque minha mãe trabalhou com Ary Fontoura e era professora de balé, então, eu comecei a fazer balé moderno. E eu tinha um corpinho bonitinho, cabelo de verdade. E daí eu comecei na arte porque sempre tive paixão por ela. Quando eu fui fazer teste na televisão em 1975, era para um musical infantil, e você tinha que ser um artista completo: cantar, dançar, interpretar. Eu fiz o teste e já comecei, em vários espetáculos que eu entrei, me tornei protagonista.
A diretora me colocou na TV Cultura para apresentar um programa, e foi aí que eu conheci o Daniel Azulay, que também mexia com arte. Eu sempre fiz de tudo para ser reconhecido,
porque eu amo a arte. Nunca procurei emprego em televisão, nunca. Tudo começou com o teatro e eles foram reconhecendo o que eu faço de diferente das pessoas.
Foi importante para mim o primeiro espetáculo infantil, eu fazia o pinóquio e o pai Gepeto falava “jogue seu coração em cima do trapézio e seu corpo irá atrás”, essa frase mudou a minha vida, e era um texto de Alceu Nunes. E daí, tudo o que eu faço, eu jogo o coração, eu faço por amor. E tem uma consequência melhor. É estranho, sabe?
Então, não é que eu queria ser artista, meu sonho era ser médico, mas tudo foi acontecendo e eu acho que queria curar as pessoas, mas eu fico feliz quando eu conto uma piada e um ou dois falam pra mim “pô, eu deixei de tirar minha vida por sua causa” ou “estou no hospital e estou sorrindo por sua causa, diminuiu a minha dor”, está ótimo! Eu não preciso ter quantidade de pessoas, mas fazer a diferença. E foi isso: eu sou apaixonado pela arte.
Eu não me vejo igual meus colegas, não me vejo. Sei que não sou o melhor, tem muitos melhores do que eu. Tive muitas oportunidades legais, podia ter mais, mas vai saber... Tenho 27 anos de SBT, e eu escrevi a “Mesma” – vocês nem sabem o que é – era uma loja aqui. Eu sou arte finalista, eu desenho, fiz Belas Artes, porque eu gosto. Você falou “humorista, roteirista, só falta ser budista” [risos]. Nada disso, eu não sou nada na realidade, tudo eu estou aprendendo, hoje aprendi mais coisas, com vocês aqui estou aprendendo mais, e cada vez eu aprendo mais e falo “caramba, queria viver 200 anos para aprender mais”. Porque mudou muito né, a tecnologia veio.
Eu escrevi a “Mesma”, fazia uns furinhos na ponta da letra com alfinete e atrás a gente passava a lâmpada e quem filmava de lado dava o brilho nas pontas das letras, era assim a arte. A ficha técnica era feita na lâmina, a gente imprimia no mimeógrafo. Vocês nem sabem o que é isso... Aí a gente filmava e passava a ficha técnica. Então, antigamente era mais arte, hoje, a computação e a inteligência artificial tomaram conta.
Você falou muito sobre ser uma pessoa humanizada, de gostar de ver o sorriso das pessoas…
É, eu nunca quis ser um apresentador, eu odeio apresentar, não tenho curiosidade nas pessoas. Todo mundo fala “porque você nunca quis apresentar?”, eu fiz por 1 ano um podcast, porque tinha uma sala desocupada e resolvi fazer. Aquilo era um parto para mim, porque eu não tenho curiosidade. O que eu tenho curiosidade é em saber com o que a
pessoa trabalha, para associar o que possa ser meu patrocinador, se for um produto legal. “por que a pessoa comprou aquilo? como ela conseguiu? o que ela fez?” Eu não sou curioso. Eu seria péssimo trabalhar em programa de fofoca ou apresentador.
E eu sou politicamente incorreto, eu não consigo segurar. Descobri, depois de 60 anos, que eu tenho TDAH e sou autista também, igual ao meu filho. Então, eu descobri isso tarde demais, eu achei que era porque eu era chato, mas eu sou chato também. E eu não consigo segurar, eu não consigo mentir para as pessoas. Tanto que quando eu entrei no Bamerindus – que era o HSBC – eu comecei a dar até palestra motivacional. E eu comecei a estudar que o corpo fala, né? Você sabe que o corpo fala. Eu comecei a estudar isso.
Às vezes minha mulher fica muito brava, ela fala “Ai, esse cara te ferrou, te sacaneou e tudo, e daqui a pouco você está ajudando ele de novo”, eu fico com pena da pessoa, não fico com raiva, eu fico com pena. Raiva você pega quando alguém te ajuda, sabia? O ser humano é assim, ele se sente indefeso e inválido quando alguém ajuda, ele pega raiva de quem ajuda, isso é natural do ser humano.
E tem a utilidade, as pessoas não sabem o que é. Utilidade é quando o seu patrão não precisar mais de você, ele vai te meter o pé na bunda. Existem dois tipos de patrão: o que não sabe fazer e o que não tem tempo para fazer, por isso que contratam as pessoas. E é o que acontece na televisão, muita gente chega em mim e fala “Ah, você está ganhando muito para fazer o Santos”, Santos só tem um, eu faço o que você faz, quero ver você fazer o que eu faço. Eu consigo dirigir um programa, consigo até apresentar, mas você tem que ser um desafio, fazer aquilo que ninguém consiga fazer, e eu acho que consegui isso. Eu fazia mais de 10 personagens no meu show, hoje eu não faço mais por causa do “mimimi”. Então eu não faço mais, as pessoas veem de forma errônea.
Mas eu não tenho aquele sentimento de ódio, minha mulher fala “está vendo, você vai ajudar de novo”. Utilidade – vocês vão aprender – a gente faz em casa também, às vezes a tua avó não está mais fazendo café para você, não troca sua fralda, não te dá mamadeira, não vai buscar pão para você ou um brinquedo no Natal, ela não é mais útil, e o que vai acontecer? Quando você estiver numa festa, você vai ficar numa roda de amigas, paquerando um menino, tomando uma cerveja, fumando um cigarro e a sua avó vai ficar com a bunda no sofá, com aqueles velhinhos da família e você não vai perder 5 minutos
com ela, você está com suas amigas hoje. Isso chama-se utilidade, ela não é mais útil para você.
Infelizmente, o ser humano é muito mal, isso acontece conosco na mídia, amanhã eu não sou mais útil, amanhã vem outro humorista. Não existe felicidade eterna, são momentos felizes. Eu estou curtindo esse momento feliz, amanhã, ninguém vai lembrar de mim, a pessoa olha e fala “Ah, eu já ri com esse cara” ou “Puts, já peguei uma raiva com esse cara um dia”, é o momento, entende?
Eu não tenho fã, eu tenho momentos para as pessoas, e eu faço de coração. Eu não me esforço para agradar quem não gosta de mim. O João não gosta de você, se você pegar um milhão e der para ele, ele vai falar “eu tenho certeza que ele roubou esse dinheiro ou ganhou em propina”, entende? Se você doar um milhão para entidade, se você fizer o que for... E eu tenho uma coisa assim, eu acredito muito em Deus, e eu acho que é por isso que eu sou diferente dos meus colegas, eu acho isso. Eu sou muito família, eu amo meus filhos, netos, cachorros, eu não consigo trabalhar - não pensando nos meus filhos - mas pensando nos meus cachorros, você acredita? Se deu meia noite e eu não cheguei em casa ainda, eu controlo eles pelas câmeras, e eu tenho que chegar em casa, porque se eu não chegar, eu fico nervoso, eles dormem comigo.
E qual o nome deles?
Eu tenho o Mack, o Duff e a Bupp. A Bupp dormia na minha cabeça quando eu não tinha cabelo, agora eu tenho um gato na cabeça - ela acha que é um gato, aí ela tem medo de deitar na minha cabeça e agora ela deita no meu pescoço. O outro deita encolhido no meu saco e o outro nas minhas costas. Eu não consigo me mexer, é uma delícia. Às vezes eles vêm de pata suja e sobem na cama, eu estou cagando e andando, quanta gente perdeu a vida coberto de lama? O que é uma poeirinha de terra? Então, eu aprendi a valorizar momentos. Muitos jovens da idade de vocês não têm condições de levantar um copo, e as vezes você reclama né? “Não tô legal com o meu cabelo” “Puxa, não tô legal com isso, essa roupa não ficou boa” e a gente exagera demais.
Eu costumo achar que a gente tem que ser merecedor, e se eu não consegui, é porque eu fiz merda no passado e não vai ser agora que Deus vai me dar. Deus dá na hora certa, entende? E, ontem eu fiz uma live com pessoas idosas, já tinham desistido da vida. Chegar
a ser idoso é um prêmio de Deus, quem consegue chegar? Com a violência que está no planeta, de doenças e tudo; então, a arte pra mim é fazer aquele momento feliz.
E você falou muito de momento, né? Sobre a utilidade das pessoas. Observando esse cenário de tanto tempo de experiência que você tem dentro da televisão, teve algum impasse, alguma coisa que veio atrapalhar a sua adaptabilidade a ponto de você querer recuar? Ou você tornou aquilo que você realmente gosta de fazer como um incentivo para continuar? Teve algum momento de frustração?
Vários! Eu já entrei no quarto e não queria sair, já pedi demissão 4 ou 5 vezes, já não queria voltar, já pensei em fazer bobagem, já pensei em desistir. Porque o artista, para ele não precisa pagar, ele não pode ser dono de posto de gasolina e nem panificadora, se não a pessoa vai comprar um pão e aplaude, se aplaudir meu pão pode levar, se gostou da gasolina, pode levar, não precisa pagar não. Então, o artista tem essa merda. Mas eu já muitas vezes pensei em desistir, porque se você é uma pessoa realizada... eu já tive tudo quanto é carro e moto que eu gosto, mas não é isso que me deixa feliz. Eu já tentei desistir por não poder fazer algo para as pessoas que eu amo.
Eu já ajudei muita gente na televisão que eu dei a minha sorte, aprendam isso: não dê sua sorte! Não estenda a mão para todo mundo. Já acolhi gente na minha casa, já arrumei emprego e não toca nem um telefone pra me chamar, então, a utilidade. Aí eu fui aprendendo, e você acaba dando a sua sorte, então eu não espero assim… um filho meu ficar doente, pra mim acabou, um cachorro adoeceu, acabou pra mim. Eu ficar sem dinheiro ou eu não fazer show, tô cagando e andando, não ligo, não ligo mesmo. Não ligo de andar de chinelo, não ligo, eu estando com a família, para mim está bom.
Eu recebo vários convites de coquetel, resort, eu não vou. O momento de ficar no sofá para mim é maravilhoso, eu viajei muito, eu acho que eu fiz “milhões” de shows, não sei nem quantos shows eu já fiz. O problema da televisão. Shop Tour, Super Jumbinho, Escolinha do Fofão, não sei quanta coisa eu fiz. Às vezes eu vejo os vídeos, eu fiz 680 trotes, vai tomar no c#, é uma b@sta né? Eu acho o trote uma b@sta, não tem nada de arte. Fui fazer um programa em Portugal e chamava “Recordado com o Santos”, pegava material reciclável e transformava, e eu vi que não tinha muita visualização, a criança não se interessa em pegar uma caixa de sapato e transformar num brinquedo, ela quer ficar no celular. Esse programa, de lá para cá, já tinha celular.
Mudou muito, sabe? Então, eu fico pensando: “eu preciso me atualizar”, na pandemia eu entrei na rede social e acabei fechando com 49 milhões de visualizações, é muita visualização. Aí eu virei style, eu posso colocar um cabelo, eu influencio as pessoas, agora um monte de gente está me mandando cabelo para eu doar para o hospital do câncer e eu estou recolhendo. Mas eu não consigo ver diferença no porteiro do prédio e da minha empregada, ela almoça comigo... Almoçava, eu não tenho mais empregada, porque eu sofro de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), então eu gosto de eu limpar o banheiro, eu varrer, eu passar o pano, eu gosto de eu limpar a casa, eu sou um faxineiro, amo. E faço com arte, coloquei tijolinhos na minha parede, porque eu gosto da arte, eu reformo obras de arte, quadro antigos, brinquedos, adoro! Meu cachorro roeu o pé da mesa, eu fiz outro igualzinho, é tomar o tempo... se sentir útil, essa é a palavra.
Mas, desistir? já pensei, muitas vezes, e vou te contar o que me fez voltar: um dia eu falei “Vou parar”, e fui no SBT para conversar com o Ratinho, eu estava lá fora no fumódromo fumando um cigarro, esperando o Ratinho chegar para falar para ele “Não vou mais vir”. Aí um rapaz chegou lá, me abraçou – o estúdio da novela é do lado - e falou “O senhor sabe o por que eu tô aqui?”, ele veio com o pai, “Por sua causa! Um dia eu parei você na rua, você estava gravando e eu era menino, e eu falei ‘meu sonho é trabalhar na televisão’ e você me falou coisas maravilhosas, e eu nunca deixei de sonhar por sua causa. E eu fiz tudo aquilo que você me falou, e hoje eu tô aqui! Já faz 3 dias que eu venho aqui para ver se eu consigo falar com você, para te agradecer.” Aí eu virei as costas, e fui trabalhar.
Muitas vezes eu tentei desistir, uma pessoa vinha para mim e falava “Pô, eu pensava em tirar minha vida, eu vi teu vídeo e tuas palavras na live, eu mudei de ideia”, entende? Então, é fazer a diferença para uma pessoa, está bom demais!
Você mencionou que um dos seus personagens mais famosos é o Santos, conhecido em todo o Brasil. Como foi o processo para criar ele? Como ele foi inventado e como aconteceu?
Eu vim para o SBT, o Ratinho me chamou, daí eu pensei "Pô, eu vou trabalhar numa emissora em rede nacional", aí eu falei “Eu vou criar um personagem que eu tampe a cara, porque se der merda, eu não me queimo, eu pego minhas coisas e puxo o carro". Aí o Ratinho "Não, não precisa disso" e eu falei: “Ratinho, eu vou cobrir a cara porque ser de merda eu saio de fininho e ninguém sabe quem é quem, não me queimo, né”.
E eu vi que no palco tinham cinco artistas lá, e eles fazendo um monte de coisa e o diretor não gostava de mim e não me deixava entrar, me segurou por seis meses. E ele achou que me prejudicou, seis meses na coxia. Eu fui estudando o personagem para ser diferente dos outros, aí transformei um personagem "Clau" e ele [o diretor] se f@deu porque me ajudou ao invés de me atrapalhar. Burro! É coisa de Deus, né?
Aí eu falei: “Eu vou fazer o Santos”, o nariz era de anão que eu usava. Não pode falar anão, né? Mas é anão mesmo, o cara é pequeno, é anão! [olha para a câmera] Te encontro na justiça, e leva alguém grande, se não vou te socar.
Fiz o nariz de anão, aí o cabelo eu copiei do "Eduardo, mão de tesoura" que é o Pinóquio do futuro. A roupa para resgatar o palhaço, o dente aqui deixa ele idiota pra frente, eu ponho um dente aqui. Eu tinha um amigo que tinha uma cara de idiota assim [mostra os dentes com a mandíbula inferior pra frente]. Os óculos deixam ele inteligente.
O Santos não come ninguém, ele acha que é sexy e dá em cima das mulheres, ele não pega ninguém, ele é muito ruim e ele se acha né? O maior comedor, ele não come ninguém! Isso que é a graça, porque não pega ninguém, mas ele acha que é galã e que ele vai pegar todo mundo, mas é o Zé Ruela da TV. As pessoas não perceberam até hoje, mas eu faço "o cara da TV", só porque o cara é famoso, e às vezes o cara é feio, né? O cara é ridículo, mas as meninas "hummm". Às vezes eu vejo, tem uns rappers, que eu vou te contar um negócio: um mais feio que o outro, e as meninas desmaiam por eles, porque é rapper, mas pelo amor de Deus, é feio. Mas eles ganham a mulher por causa da televisão, então eu fiz o Santos lembrar esse artista. E os artistas riem comigo sem saber que eu estou fazendo eles.
Aí eu fiz o personagem, entrei no camarim, o Ratinho olhou e falou: “vai se chamar Santos! Pra ser o sobrinho do Silvio Santos e não poder te mandar embora”. Aí a bost@ começou, porque eu não podia ir em lugar nenhum que todo mundo me lambia, porque eu era o “sobrinho do Silvio Santos”. Recebia convites de coquetéis, camarotes e todo mundo na praça de alimentação me olhava com outros olhos, sabe? Eles ficavam meio assim comigo "é o sobrinho do Silvio".
E quem me conhecia, era nos bastidores. Quem não conhecia, as vezes eu estava de Santos, o câmera não sabia que eu era a mesma pessoa, levou tempo pra entenderem que eu era o Santos. Muitos caras falavam "P#uta, cara, eu não sabia que você era o Santos, que legal! Eu vejo você aqui na praça" daí eles não associavam.
Mas disfarça muito! Eu acho.
É, e parece bem mais velhinho, né? Às vezes eu acho que tenho 80 anos de Santos. Mas olha, eu estou quase igual, viu? Tem partes do meu corpo que eu chamo de celular, entra no túnel e perde o sinal. Eu tinha que inventar uma piada, né? Mas é leve, né? É metáfora.
O Santos, acredito que seja o seu principal personagem. E você mencionou que a questão do trote, você não gostava de realizar.
Nunca gostei, eu acho chulo!
Mas o que te incentivou a fazer?
Foi assim: Ninguém nunca tinha feito na televisão, eu comecei em 1986 a fazer trote na rádio e o Ratinho lembrou que eu fiz na rádio e ele falou "O que você acha de fazer na televisão? Nunca ninguém fez", isso em 1999, e eu falei "Será que dá certo? Vamos gravar" e deu!
E deu alguns processos, né? Deu 27 processos, dos quase 600, tá bom, né? Foram poucos. Mas foi legal, e eu tenho gravado ainda, com menos intensidade.
Mas eu não considero o trote uma arte, as pessoas falam que é uma arte de dominar você improvisar. Eu não sei o que eu vou falar, eu não penso, sai na hora e quando eu ligo para 4 pessoas, vou intercalando e ponho os temas para eu poder voltar e não me perder, senão eu misturo, não é Alzheimer, é muita gente. Muitos não aprovam, mas eu acho o trote chulo.
E demorava muito? Quantos trotes você gravava por dia?
Eu começava às 8h da manhã e terminava às 6h da tarde. A gente ligava para 40 pessoas, aprovava 4 ou 5. Muitos não ligam do apelido, muitos não atendem, mas os que ligavam e xingavam bastante, aí fica.
Eu fui gravar na semana retrasada e notei que a produção já liga para a pessoa antes e fala "Vai alguém te zoar, é o Santos", porque eu notei que eu falo, falo, falo e a pessoa já manda tomar no c#. Tem alguma coisa errada, né? Então, eu falei "Pô, tá caindo fácil", e eles pensam que eu sou otário e eu não sei que eles estão armando.
Você acha que eles selecionam os números, então, para você ligar?
É, eles que selecionam, a gente recebe muito! Antigamente era fax.
Mas o Santos é o que eu mais me adaptei, eu fazia uma velha, um padre, fiz o Gugu muitos anos, porque eu tenho a semelhança dele, né? Por ser parecido, porque imitar, eu não imito ninguém. Todas as vozes que eu faço dos personagens, eu que crio, e por azar, elas não combinam com nenhum famoso. E daí não dá certo, eu não sei imitar. O Gugu eu aprendi a imitar o imitador, eu pedi para ele me ensinar como faz e aí eu fiz. Aí no programa eu fazia o programa do Gugu no teatro. Eu fazia um padre, fazia o Seu Joseph, que é um velho, né? Que é mais fácil de fazer, esse velho também eu copiei do Ronald Golias, essa voz, ele quem fazia um velho com essa voz, e eu copiei dele. E o personagem criado, o Santos, foi referência; todo mundo tem uma referência dos grandes ícones, e muita gente me copia, ou melhor, me usa como referência, eu usei como referência: Charlie Chaplin, O Gordo e o Magro, Costinha, Abbott e Costello, então, eles são minha referência.
Uma vez perguntaram para mim: quando você conta uma piada e a pessoa não ri? Eu tenho que estar preparado e quando eu era garoto, eu me preparei. Assistia Jerry Lewis, e ouvia ele falar “Quando eu contava uma piada e ninguém ria, eu me jogava no chão e as pessoas riam”. Aí eu comecei a assistir muito filme americano e eu vi que eles contam uma piada e a piada é sem graça, a pessoa não ri, aí eles faziam um gesto com as mãos e falavam “entendeu? Foi uma piada”, e pensei “p@rra, esse é o gancho!”. Aí eu vou contar uma piada – eu faço isso já há 20 e poucos anos – e a pessoa não ri, aí eu falo gesticulando “entendeu? Foi uma piada”, é um gancho pra pessoa rir porque foi uma merda. Então, eu contei já tanta piada sem graça e a saída é essa, é um macete, né? Porque você tem uma estratégia para escapar da merda que você fez.
E além do programa do Ratinho, existem outros projetos que você tenha atualmente ou pretende fazer?
Eu fiz vários programas, né? A Praça é Nossa, Eliana, Ana Hickmann, Tom Cavalcante... Eu estou produzindo 16 episódios de desenho do Santos, pra Amazon, eu tenho a TV Mais Brasil, que eu comprei agora e é só programação dos anos 50, 60, 70, Os Flintstones, Os Jacksons, os filmes que fizeram sucesso na minha época: Batman e Robin, O Túnel do Tempo, para resgatar a coisa da família. Então, eu tenho bastante programação família lá.
Não coloquei jornalismo, não vou pôr, não vou falar de crime, de morte, só coisa positiva. Programa infantil, desenho animado, eu não tenho nada assim que tenha cunho sexual, nada. Eu fiz uma televisão pra família mesmo, não tem muitos assistindo, mas tem as pessoas mais importantes da minha vida, que gostam do meu trabalho, é isso que eu fiz na TV. “Ah, tem 1 milhão só de pessoas que assistem”, f@da-se, 1 milhão de gosta de mim e do meu trabalho, é para essas pessoas que eu vou continuar fazendo, entende? Se fosse só a TV para a minha mãe, estava bom.
Então, vocês têm que aprender uma coisa que é muito legal: a moeda tem dois lados, um já estão vendo, que é o nosso aqui, tente mostrar o outro lado. E aí você vai criando coisas novas. Tudo o que você fizer, não tenha medo de errar, só faça, se não funcionou: corrija. Se não presta, tire fora, saia da estrada, vá pegar outra. Veja com quem você vai andar, porque é certo, é físico, matemático: se você andar com pessoas ruins, você vai ser uma pessoa ruim, se andar com pessoas negativas, você vai ser negativa, se andar com pobre, você vai ficar cada vez mais pobre, entende? Eu digo pobre não de dinheiro, pobre de mentalidade, porque dinheiro não faz a diferença nesse sentido da amizade, e eu sei disso. Eu vejo os ricos que olham pra mim e falam “Queria ter tua vida”, eu vejo um garoto na rua ali limpando o vidro num carro, eu não trocaria a minha vida com ele? Trocaria! Puta, ele tem 16 anos, eu, vá saber quantos anos eu vou viver mais, essa é a fortuna: a idade! Vocês têm ela. Pode andar do lado de uma pessoa rica, você não vai ficar rico, mas se você anda do lado de uma pessoa feliz, o teu dia vai ser maravilhoso. É diferente, entende? E não pense “quero ser famosa”, só pense “quero ser reconhecida”, se ela que é tua amiga gostou do que você fez ou a sua mãe, teu pai e teus irmãos... o resto fod@-se, porque são essas as pessoas importantes para você, entende? E você fazendo para agradar a sua mãe, o público que vai te ver, vai se sentir feliz porque você agradou a pessoa mais importante da sua vida, a pessoa que mais quer o teu bem. Então, é ali o certo, você está no caminho certo.
Iran, falando em caminho, acredito que você tenha presenciado muitos momentos significativos e emocionantes. Em torno de toda a sua carreira, teve algum momento em que você se viu prestigiado com algo que aconteceu diretamente com você?
Claro, já aconteceu! Hoje, no shopping que eu fui, uma senhora me abraçou, levei um susto e pediu desculpas para a minha esposa. Ela me abraçou por trás, me agarrou e falou:
“Lembra que você estava aqui tomando café? Eu estava muito triste aquele dia, nossa... você mudou a minha vida.” Um dia, eu estava em um espetáculo e ganhei vários brindes para dar. Eu ganhei uma correntinha de ouro de uma menina e escolhi aleatoriamente uma pessoa da plateia. Quando escolhi essa pessoa, ela subiu e começou a chorar que não parava mais, copiosamente. Eu perguntei o que aconteceu, e ela falou: “Você está me dando um pingente de ouro de uma menina. Vim para o seu espetáculo porque a minha irmã disse que eu precisava sair, porque faz um mês que perdi minha filha.” Quer coisa mais louca que isso? Uma pessoa, é isso o que importa.
E aí você para pra pensar: não precisava estar cheio aquele dia no teatro, podiam ter três pessoas junto com ela, eu já teria realizado o meu trabalho. Não é bastante, como a gente fala no teatro. Não sei se vocês sabem por que a gente fala “merda para você”. Essa expressão significa “boa sorte” no teatro em quantidade de pessoas. O que é? Antigamente, na França, nos teatros, as pessoas iam assistir aos espetáculos de carroça, carruagens e cavalos. E, lá fora, no estacionamento dos cavalos, quando lotava muito e eles iam embora, aquilo ficava cheio de bosta de cavalo, porque o teatro lotou. Então é por isso que falam “muita merda”: é para que associem a isso, que o teu teatro lote e dê tudo certo.
E deu para mim. Hoje, eu virei marca de sorvete. Vem aí o “Delicinha do Santos”, e eu vou falar para você: vai ser o sorvete mais vendido no Brasil, porque eu vou colocar uma coisa que ninguém nunca colocou.
E você pode falar o que é?
Posso! Carrinho de sorvete, igual àqueles que passam nos Estados Unidos. E é gostoso, barato, vários sabores, é uma delícia. Um saquinho de sorvete que vai custar dois reais, e estou fazendo para perpetuar a minha marca.
Você, como neto de circense, filho de bailarina, acha que isso influenciou na sua decisão de virar artista? Ainda mais pelo fato de humorista não ser uma das profissões tão valorizadas quanto merece, isso influenciou? Você pensou em seguir outra carreira?
Sim. Meu pai era muito sério, ele era a minha cara e morreu com a minha idade, de câncer. Depois que eu pus cabelo, fiquei a cara dele. Mas meu pai não gostava de teatro nem nada, a minha mãe amava. Eu admirava muito os médicos, eu achava que ia ser médico, porque vi um filme uma vez com o Robin Williams em que ele faz a diferença no hospital com os pacientes, e aquilo me incentivou cada vez mais a ser médico.
Mas eu fui internado esses dias também, tive um piripaque. Eu ia nos quartos dos pacientes bater papo e eles ficavam felizes. Eu me incentivei. Eu tenho duas meninas, as duas são atrizes e têm agência de publicidade. Os meninos odeiam televisão, tenho dois meninos, não gostam. Tenho dois netos, não gostam. Um é formado em Direito. Eles não gostam de televisão. E todos os meus filhos tocam demais: violão, guitarra, bateria... e nenhum quis ser músico, mas tocam estupidamente bem. E eu não toco bosta nenhuma, nada, nem o que vocês estão pensando, nada. Gaita, que eu estava falando.
Então, eu não sei como eles tiveram esse dom, mas não quiseram seguir a carreira. Mas as minhas duas meninas, a Karina e a Suellen, interpretam maravilhosamente bem. São ótimas atrizes, até melhor que eu.
E uma delas te ajuda, não é?
Sim, a Suellen me ajuda mais. Ela vai nos lugares comigo. A Suellen é uma lutadora, ela tem esclerose múltipla, descobriu já quando começou a ficar mocinha. Foi uma barra para nossa vida. Ela mesma aplicava a injeção nela mesma. Tem que aplicar a injeção um dia sim, um dia não. Hoje é um tratamento paralelo com comprimidos e tudo, e ela mesma se cuida. Não para de trabalhar. Teve um problema de calcificação dos ossos, mas ela está indo operar. É uma batalhadora. Comprou o apartamento dela aqui perto, ela não fica de mimimi.
Eu tenho um filho com autismo, e ele está cagando e andando. Ele ri de autista, nós também. A gente tira sarro. Ele manda eu imitar ele, que anda assim e eu imito ele. Nós estamos bem tranquilos, a gente não toma do veneno de jeito nenhum. E eu sempre quis ensinar alguma coisa. Você vai para o colégio, estuda arte, e as pessoas não ensinam como ser prático. Não ensinam, elas complicam, né?
E eu não sei como vocês fazem, estão fazendo jornalismo, e é bom aprender a decorar as coisas. Sabe como decorar? É um exercício bom. Vocês devem ter lido gibi quando eram
crianças. Os meus me incentivavam a ler. O meu pai sempre falava: “Se sua biblioteca for maior que a sua TV, você vai ser um gênio. Se a sua TV for maior que a sua biblioteca, você vai ser um otário, vai acreditar em tudo o que vê.” Porque a televisão é 100% mentira. Não é 99, é 100! Não confie no que você vê. Não acredite naquele garoto bonitinho, com sorrisinho simpático. Não acredite. É 100% mentira. “Ah, você exagerou.” Eu provo: é mentira a televisão. E vem enganando o povo há muitos anos. Então, é uma pena.
E eu aprendi. Eu fazia isso com os meus filhos desde criança, exercitar. Você fala bem inglês? Por exemplo, para você exercitar o inglês, você deve fazer isso com os seus filhos. Faça para você mesma em casa. Pega um pedaço de papel e escreve “Ceiling” e cola no teto do teu quarto. Toda vez que você olhar, você vai visualizar que ceiling é teto. Você põe no tapete “rug” e vai visualizar. Na janela “window”, na porta “door”. Enfim... o que vai acontecer? Você vai aprender todas as palavras e objetos que você tem em casa. Depois, é só formar as frases caso precise, e estudar um pouco mais do inglês. Mas aprende com facilidade.
A criança cresce aprendendo. E ler quando é criança vale muito a pena. Ler gibi. O que acontece é que os jovens abandonam a leitura porque pegam um livro didático. Nunca leram, aí vão para escola, e vem a professora, aquela carniça, ela vem com livro didático de geografia, história... Quem aguenta ver uma merda daquela? Ninguém! Aí desestimula a criança. O exercício tem que ser desde pequeno.
Se eu fizer um exercício com vocês, todas vocês vão acertar. Isso é muito legal para nós. Por que eu falo isso? Porque nós todos somos atores, não somos? Se você quiser ser natural, você não vai ficar assim. Quando está no teu quarto sozinha, você fica assim? Fica nada, eu também não. Eu estaria agora coçando o saco, com as pernas para cima, ou tirando um tatu. Um dia, eu fiz um filme e o diretor mandou eu parar. Eu era policial dentro da delegacia. Estou assim [com o dedo no nariz], e ele: “Para, para! Pô, Iran, você está tirando um tatu?” Eu falei: Cara, eu estou na delegacia, sozinho, sou um policial civil, o que você acha que eu estou fazendo? Tirando tatu, vendo revista pornô. O que um policial faz dentro de uma delegacia? Pose? Sozinho? Aí ele falou: “P#rra, você está com a razão.” Eu estou sendo natural. É ou não é? Quem é que vai tirar tatu no cinema, na televisão? O cara quer se mostrar gostoso, ele faz pose. E para gente, é ser ator o dia inteiro. Nós estamos representando o tempo todo, não é? Você se maquia, está fazendo
um personagem. Você colocou esse cabelo, se vestiu desse jeito, porque a gente é um personagem, a gente quer viver aquele momento.
Para decorar, tem um exercício que é muito legal, vai valer a pena para vocês. Tem que visualizar. Visualize. Eu vou falar para vocês vários objetos. Daqui a dez anos, se eu encontrar com vocês, vão lembrar. Fechem os olhos e visualizem: tapete, vamos pensar no tapete. Agora eu vou falar para você: “cadeira”. Visualizou a cadeira em cima do tapete? E em cima da cadeira vamos colocar uma geladeira, certo? Em cima da geladeira está um copo, e em cima do copo tem uma colher. Visualizaram?
Sim!
Bora lá, abram os olhos. Qual a primeira palavra?
Tapete.
O que tem em cima do tapete?
Cadeira.
E depois?
Geladeira, copo e colher.
F#da! Não tem como errar! Você pode falar mil objetos. Quando lembrar da colher e eu falar para você colocar um livro em cima da colher, você vai lembrar do livro, porque nós visualizamos. É um exercício muito gostoso de fazer para aprender texto. Você nunca mais esquece, nunca mais! Então é um exercício sensacional para a gente decorar, e é bom porque evita o Alzheimer, né?
Esses exercícios você aprende no teatro, na escola, que eu imagino que você tenha feito. Mas é muita sabedoria, de onde vem? Experiência? Mais de 30 anos de televisão?
É errar e corrigir. Teatro é diferente de televisão. Na televisão você tem um movimento curto, né? Tem uma linguagem. A televisão, vocês devem estar me pegando de plano americano, não no geral, mas é uma linguagem, ou geral ou americano. Ninguém vai me pegar do joelho para cima. Tem uma linguagem de cortes, as câmeras são muito pesadas, os movimentos muito restritos. Então você não se movimenta muito no palco. Já no circo,
você vai para lá e para cá porque é picadeiro, você é cercado pelo público. Então o palhaço vai lá e conta uma piada para quem está do lado esquerdo, vai para o lado direito. No teatro também, os movimentos são compassados, são marcados, porque é uma tela em 3D para quem está lá. Ninguém fala de costas no teatro porque não se ouve. No teatro não se usa microfone, se expõe a voz para a última pessoa da plateia, se cuida do seu ombro, você nunca fala de lado. Seu ombro direito tem que bater na ponta da primeira cadeira da plateia e o teu ombro esquerdo aqui. É esse o plano que você fica de meio corpo e não se anda de costas. Existe uma linguagem. Então essa linguagem é tudo. Eu estudei porque eu fiz laboratório, eu perguntei, foi assim que cheguei até aqui.
Pergunte: como que mede a intensidade da luz para esse ambiente? Quanto que está dando? Por que mede isso? Por que não pode ter sombra? Por que eu preciso de um rebatedor? O que é aquilo que a pessoa está atrás, é um viewfinder? Para que serve um viewfinder? Quem inventou o viewfinder foi o Jerry Lewis, para ele ver o que ele estava gravando no filme dele, entende? Então, por isso que às vezes eu falo dele, porque ele é um gênio. Pergunte, não tenha vergonha. Você só vai ser um grande profissional se você não tiver vergonha de perguntar. Seja chata, pergunte, você vai ser a melhor. Pior é aquele que não pergunta, não procura. Hoje não tem desculpa, tem o Google, né? Mas eu digo: vai fazer um filme? Pergunte, não tenha vergonha de perguntar. Até hoje eu pergunto, eu vejo coisas que eu não sei fazer. Eu, por exemplo, não sei assinar aí no iPad, eu tenho que pedir para o meu filho como que coloca para assinar. Eu não sabia. Não tenha vergonha de perguntar, porque o mais bacana é você mostrar que tem interesse do que ser passado por idiota, entende? Quem mostra interesse vai para lugares muito grandes, né? Porque além de você se interessar, a pessoa vai notar seu interesse, você tem ambição de querer aquilo.
E falando nisso, de ambição, de querer mais, você acha que falta alguma coisa para completar a sua carreira? Você tem algum plano a traçar ou acha que o hoje basta?
Eu quero ter uma filial de TV, eu quero não, eu vou ter! Eu vou ter o meu sorvete no Brasil inteiro, eu vou virar desenho animado para aquela geração que quer voltar a resgatar a família e respeito, porque hoje eles confundem liberdade com libertinagem, entende? Eu não uso calça apertada mostrando os membros e não está escrito aqui “eu gosto de mulher”. Não preciso disso, não é preciso mostrar o que você é. Não existe diferença em
etnia, cor e preferência sexual. Caráter não se mede por aí. Se fosse assim, todo branco, rico e hétero era boa pessoa, mas não é. Comprovadamente não é, me prove depois.
Não existe qualificação nem caráter por etnias ou tamanho. ‘Ah, ele é anão, ele é negro, ele é baixo, ele é careca, ele é gordo.’ O desclassificado não merece, porque é um desclassificado: não quer aprender, não quer ajuda. Tem muitos caras que você tira da rua, dá oportunidade e o cara volta a roubar. Dá emprego para ele, ele rouba dentro da empresa que ele foi trabalhar, não quer. O vagabundo é vagabundo, o desclassificado é desclassificado. Agora, quem quer encontrar o seu espaço, não importa se ele tem uma perna só, se ele tem um braço só, se ele tem autismo, se ele não tem dentes, não importa, não é medido assim. E tem muitas pessoas de vários tipos que trabalham comigo, e eu estou cagando e andando para o tipo da pessoa. Eu quero pessoas que tenham vontade de vencer, não de somar comigo para eu enriquecer e ele se f@der. ‘‘Vamos trabalhar lá para o Iran, deixar ele rico’’ Não! Só trabalha comigo quem quer estar junto comigo e quer ficar bem. Porque o pior patrão é aquele que compra um avião e você que se f@da para comprar um carrinho financiado em 12 vezes, em 24, 60 vezes, entende? Eu não quero os meus amigos assim. Eu tenho poucos que trabalham comigo: o Dalto, o Zau, a Pati, o Glauco. Mas eu quero que eles tenham a mesma coisa que eu, igual. Se eu comprar um avião, quero que eles comprem também. Se eu comprar um carro importado, quero que eles comprem também. Eles trabalham comigo, então quero que eles fiquem igual a mim.
E nós, não digo eu, nós vamos ter uma TV em vários estados. Quero abrir uma filial em Curitiba. Vou abrir no ano que vem, em janeiro, uma filial aqui em São Paulo, porque a minha é em Jundiaí, e eu vou fazer a diferença. Porque eu tenho dois sonhos, que são: os animais – eu quero abrir uma clínica com esse dinheiro para ajudar os animais. Eu montei a ONG (Organização Não Governamental), mas até agora não me deram o dinheiro. Então eu vou resgatando os cachorros na rua, eu ajudo 400 cachorros em Pirituba. Aí eu levo ração, vacina e tudo. Ajudo as crianças, mas não divulgo, porque não vou expor as crianças ao ridículo para ganhar seguidores. Então acho que é por isso que eu não estou ganhando verba do governo. Eu não exponho, né? Não divulgo, não mostro que eu vou no domingo.
E o que eu quero fazer, por incrível que pareça, vocês não vão acreditar: eu tenho um projeto – que eu não conto para ninguém - porque não existe, é sensacional! Você vai querer ficar velha e ir morar lá. É um lugar para idosos, totalmente diferente. Não vou
contar por que vão me copiar, tudo que eu contei já me copiaram, mas é um lugar que você vai falar “Caraca, eu quero ir pra lá”. A tua avó vai querer ir, o teu avô vai querer ir. Sabe por que eu quero fazer isso? Porque eu não quero ficar atrapalhando meus filhos, eu quero construir para eu ir pra lá, porque é muito chato ficar velho e os outros terem que cuidar. Tem aquele velho que morre rápido, agora tem aquele que já para de andar, caga nas calças, porque a gente volta a ser criança, né? Vai cagar nas calças e tem que limpar, tem que cuidar do remédio, aí a pessoa não tem dinheiro para por uma enfermeira o dia inteiro, deixa no asilo e o pessoal fala: “Você viu? Abandonou lá”. Mas o filho tem que trabalhar, tem que continuar a vida, tem os próprios filhos para criar e como que vai cuidar? Não é fácil, os cuidados são maiores. Tem os que perdem a memória, tem aqueles com Parkinson, que é legal na hora de mijar ter Parkinson, né? Pelo menos o velhinho viaja. Na hora de mijar, ele deve ter um orgasmo da p#rra, [risos] é o jeito de acordar o pinto que já está morto. Tem vários tipos, né? E eu pensando nisso, falei: P@rra, eu quero fazer isso!
Todo mundo fala: “Ah, você já realizou seus sonhos?”. Eu quero fazer oito coisas, então que se dane, porque eu não posso morrer agora. Eu tenho que fazer, eu preciso fazer. E não é por mim, é uma satisfação poder realizar, porque as pessoas vão ver e copiar. Vão pensar: “Caraca, como eu não pensei nisso antes?”. Uma vez, vi uma entrevista em que perguntaram ao Bill Gates qual era o segredo para ficar rico, e ele respondeu: “Está vendo esse quadro aqui?” “Sim, estou vendo.” “Então, eu vi primeiro.” E eu sempre pensei que preciso fazer alguma coisa que os outros ainda não fizeram.
E o desenho não, o desenho eu estou fazendo igual a todo mundo, só estou preservando a qualidade do desenho, que é uma coisa família. Não tem luta, não tem briga, sabe? O menino não rouba o carrinho do outro, nem o celular. Tem mais ação, emoção e valorização da escola, do pai, da mãe, dos amigos, é uma coisa que fala sobre amizade, sobre conquista e é isso, eu estou fazendo esse desenho. Pode ser que 40 crianças só assistam, ótimo! 40, já é mais que 1, e que se f@da o restante. Quem quer ir no meu barco vai, quem quiser ir para o diabo dos infernos, que vá!
E para finalizar, perguntar rápidas, responder com uma única palavra! Vamos? Pode ser?
Puts, lá vem merda. Estou ferrado.
Uma única resposta. Uma pessoa?
Que eu goste ou que eu não goste?
Uma pessoa.
Uma pessoa... Eu aprendi uma coisa esses dias quando eu vi no TikTok, e vou falar bem rápido: um pai estava cortando um bolo e a mãe e a filha estavam esperando para receber, aí ele pegou o bolo e deu o primeiro pedaço para ele mesmo, a mãe e a filha ficaram chateadas; “Nós não vamos ganhar o primeiro pedaço, não?”; ele respondeu: não, o primeiro pedaço vai ser para mim.
Uma pessoa? Eu, porque se eu não me amar, como posso amar o próximo? Se eu começar a me odiar, o resto que se f#da, eu pego raiva dos outros, então, eu.
Um medo?
Put@ que p@riu, tem um monte, eu não vou falar mijar na tampa. Hum.. Medo: não realizar o sonho, e não poder deixar a minha esposa e filhos bem. Esse é o meu medo de verdade mesmo, esse é o meu medo.
Um lugar?
Minha casa, amo ficar em casa! Put@ que p@riu, não troco por viagem a Las Vegas, Nova York, Dubai… nada, nada, nada. Adoro ficar no meu sofá com os meus cachorros. Eles peidam gostoso, sabe? É um Buldogue francês também né, eles têm um cheirinho gostoso. Você viaja, eu adoro.
Família para você é?
Tudo, tudo, tudo! Eu ensinei meus filhos assim: Filho, vai na balada, não arruma briga. O cara que bateu o ombro em você ou te xingou, ele não faz parte do teu passado, ele não é importante para o seu futuro, então a opinião dele, a atitude dele vai entrar na sua vida e vai fazer parte daquele presente do futuro. Não se importe, e eu não me importo mesmo. Se a minha mãe, como eu falei para você, se a minha mãe, a minha esposa e meus filhos
falam “Que legal pai!”, o resto que se f@da, porque eu sei o que o resto está errado, e eles estão certos, porque eles jamais vão querer ver o pai fazer uma bosta.
Porque eu fiz bosta no passado, muita bosta. E sabe quem me corrigiu? Meus filhos. Tipo: ‘‘não jogue’’, eu já joguei. Fui para Las Vegas, gastei seis mil dólares em um dia. ‘’Não jogue, pai’’, não joguei. ‘‘Não coça o saco. O Santos coçando o saco é feio na televisão, não põe mais a mão ali, fica feio.’’ Nunca mais pus. Entenderam?
No final é o que importa, né?
É, porque se eles falaram, é porque são pessoas do bem e pessoas que me amam. Como eles não vão também gostar que eu faça isso, que eu jogue ou que coce o saco, entende? Agora a gente termina se abraçando?
Mais uma, para finalizar com chave de ouro: Uma motivação?
Uma motivação? Minha mulher, que acredita em mim. Eu chego em casa e ela está vendo meus vídeos, gente, no Tik Tok. É a minha maior fã, e eu também sou fã dela. Eu faço merda, ela vai junto. Eu vou viajar, fazer alguma coisa, ela vai comigo. Acordo de manhã, ela faz o café pra mim. Sabe o que dá certo em um casamento? O que dá certo é que a minha mulher faz o que eu não sei fazer, e eu faço o que ela não sabe fazer. Nós somos totalmente diferentes, e é isso que dá certo, porque ela complementa o que eu não sei fazer e faz. Entende? Então, isso é legal. E daí, deu certo.
Quantos anos juntos?
Acho que 40.
Muito tempo, muito tempo. O último: Um conselho. Pode usar mais que uma palavra.
Conselho? Tudo que você fizer, jogue o seu coração em cima do trapézio que o corpo vai atrás, se você fizer com o coração, vai mudar, entende? “Ah, vou fazer porque eu quero aparecer, vou fazer para ter bastante seguidores, vou fazer para botar inveja”, fod@u!
Primeiro que você não vai conseguir, segundo não vai até o final, e terceiro que você não vai se sentir realizado. Agora se você jogar o coração, put@ que pariu, é outra coisa!
Não sei se vocês acreditam em Deus, mas vou contar uma coisa para vocês. Agora, vocês não têm que pagar luz, nem aluguel, nem gás. Talvez nem a prestação do carro do pai e da mãe. Aí o cara toca a campainha: ‘:Eu vim cortar a sua luz.’’ O que você faz? Você se ajoelha para ele? ‘‘Pelo amor de Deus, não corta a minha luz, por favor, eu tenho carne na geladeira, tenho mamadeira, vai estragar o leite das crianças.’’ Aí você se ajoelha, e o cara vem: ‘‘Você não pagou o aluguel? Vou te despejar.’’ E você se ajoelha para a pessoa. Parem de se humilhar para essas pessoas, você tem que se ajoelhar para Deus, se a coisa está uma merda, vai no quarto colocar o joelho no chão, e ajoelha para Ele, e o resto que se f#da, é Ele que você vai se ajoelhar e vai falar: Eu sou merecedor, agora é a hora, se não for a hora, me diz qual é a hora, mas me proteja até lá. Porque às vezes não é agora, é daqui dois anos ou daqui a cinco anos, Ele sabe o que fazer.
Se Deus tivesse me dado dinheiro há oito anos atrás, eu tinha perdido tudo, tudo, tudo, tudo, tinha perdido, Ele me preparou de tal maneira! Eu tinha perdido um investimento que deu errado, ajudado pessoas que não merecem e ter estragado o meu futuro. Mas Ele não me deu, eu fiquei pensando “Mas que sacana, estou me ajoelhando para você”, até que ele falou comigo: Agora é a hora, aprendeu seu bosta? Agora eu vou te dar”. Entende? Ajoelhem para ele, vocês são jovens.
E outra coisa é: não se ligue em vícios, que vocês vão sofrer consequências quando estiverem velhos. Beber demais? Eu nunca bebi. Droga? nunca usei. Vocês não vão chegar na minha idade se usar droga ou beber demais, não vão chegar, não vão mesmo, e vou falar: eu dou de cem a zero em muitos garotos na minha idade. Eles não dão para nada, estão podres, tudo podre de barriga, podre das pernas, podre do saco, do pinto, podre do intestino, podre da cabeça. Não caiam com essas pessoas, não estraguem. A única coisa que tem de legal é o nosso corpo, vão lá fazer a sobrancelha! Sabe o que é uma mulher bonita? Uma mulher que faz as unhas, cuida do cabelo, arruma a sobrancelha e cuida dos dentes. O homem não liga para celulite, nem estria, não liga para uma barriguinha, não liga para um peito pequeno ou caído, quem liga é outra mulher. A mulher se veste para outra mulher, a mulher faz academia para outra mulher, a mulher põe silicone para outra mulher, para deixar invejosa a outra mulher com o peito pequeno. Ela quer emagrecer por causa da outra mulher, o homem não procura mulher por causa disso, ele quer ver uma mulher com a sobrancelha e cabelo bem-feito, os dentes tudo limpinhos, arrumadinhos,
unhas dos pés e das mãos, ele olha as mãos e os pés e fala: put@ que pariu, que coisa gostosa, fofa, cheirosa! Pode até estar com uma roupinha molambenta, o homem está cagando e andando, eu digo por que eu sou da geração HOMEM, porque que tem pouco homem hoje, né? Se você se casar com um que for homem, já está bom. Não precisa ser rico nem pobre, basta ser homem. Como já não tem, eu falo: entre eu e os meus amigos, nós homens sabemos que gostamos de uma mulher assim, é isso, esse é o mínimo que você pode esperar.
E é isso! Espero ter sido útil, porque ninguém conhece esse lado, né? Mas é isso: Jogue o seu coração em cima do trapézio que o teu corpo vai atrás.
Muito obrigado, Iran! A gente agradece a oportunidade.
Que isso!
JORNAL DAS SEIS:
Anna Clara Pereira Gomes
Brenda Cristina da Silva Barbosa
Catia Milene dos Santos
Giovanna da Silva Salgado Rabelo
Giselle Cristina Rodrigues dos Santos
Jamilly Ferreira Soares
UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL
Entrevista e Reportagem Multimídia
Professor Alexandre José Possendoro