A luta das trancistas contra a desvalorização profissional em São Paulo
Trabalho manual, histórico e cultural segue invisibilizado diante de desigualdades e estigmas raciais.
Mais do que embelezar, a arte de trançar revela autoestima, cuidado e resistência. Apesar de décadas de atuação, as trancistas ainda enfrentam a falta de valorização profissional. No cotidiano paulista, essa desvalorização se manifesta de diversas formas, desde a informalidade predominante à ausência de reconhecimento.
A profissão de trancista foi oficialmente reconhecida pelo Ministério do Trabalho há menos de um ano, em junho de 2025, ao ser incluída na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO). A formalização, no entanto, ainda não garante melhores condições de trabalho. Rubia Silva, de 36 anos, atua há mais de 10 anos na área e afirma que além da produção de tranças requerer um alto nível de dedicação, a remuneração ainda assim é menor do que deveria. “A gente leva de 8 a 9 horas para fazer um cabelo e o retorno daquilo era nada.”
O contraste entre a baixa remuneração e a rotina intensa reflete a desigualdade social ainda presente nesse setor. Rubia menciona que, por necessidade, muitas trancistas passam a noite trabalhando para sustentar suas famílias. O relato da trancista Beatriz Vieira reafirma essa realidade: “Eu já fiquei 12 horas fazendo uma trança para, no fim do dia, receber apenas 300 reais”. Essa desvalorização da profissão também é destacada por Marcella Zambonn, de 30 anos. “Eu pago as minhas contas com as tranças, sabe? Tenho amigas também que são trancistas e são donas de família, as sustentam com os penteados e tranças. Eu acho que deveria ser muito mais valorizado, porque é um trabalho 100% manual”. Além da instabilidade financeira, a rotina intensa evidencia o desgaste físico enfrentado diariamente por essas profissionais.
Os desafios vão além da precarização do trabalho e incluem preconceitos relacionados à estética afro. Beatriz Vieira, relata episódios de discriminação sofridos ao longo da profissão: “Já tive clientes que disseram não querer ser atendidas por mim por causa do meu cabelo. Falavam que eu parecia usuária de drogas ou que morava na favela.” Segundo ela, em alguns ambientes, o trabalho das trancistas ainda é visto com inferioridade, principalmente por não estar ligado ao modelo tradicional de trabalho formal.
Jady da Silva, de 27 anos, também aponta que a valorização das tranças ainda acontece de forma desigual, dependendo de quem usa o penteado. Ela afirma que durante muito tempo os cabelos crespos e as tranças foram associados a estereótipos negativos, principalmente quando usados por pessoas negras. “A gente era criança, meninas negras, que não se via nos lugares e não se sentia encaixada”, relembra. Para a trancista, embora atualmente exista maior aceitação estética, o preconceito ainda impacta diretamente a forma como o trabalho das profissionais da área é reconhecido.
Apesar das dificuldades na profissão, muitas trancistas defendem que a valorização do trabalho também acontece pela forma como elas mesmas precificam seus serviços. Para Eneida Ferreira, que é trancista há 15 anos, cobrar um valor justo é essencial para que sejam reconhecidas: “Tem muitos clientes que falam ‘fulana faz mais em conta’, eu só falo: então marca com ela. Eu não abaixo meu valor”. A percepção é semelhante à de Eshiley Silva, trancista de 20 anos, que afirma que muitas profissionais acabam reduzindo os próprios preços para conseguir manter a clientela, o que contribui para a desvalorização da categoria.
Rubia também defende essa ideia, ela afirma que no início da carreira, aceitava valores muito baixos, mas passou a entender o valor do próprio serviço. “Se a pessoa realmente tiver interesse e gostar do meu trabalho, vai pagar o preço”. Para ela, oferecer preços menores contribui para a desvalorização coletiva da profissão. Jady é direta ao compartilhar da mesma percepção: "Alguém querer colocar o preço, por exemplo, ‘você faz a trança por tal valor para mim?’, a resposta é bem simples: não!".
Mesmo diante da informalidade e das dificuldades financeiras, as trancistas seguem reivindicando reconhecimento profissional e melhores condições de trabalho. Entre jornadas longas, esforço físico intenso e a necessidade de sustentar famílias com a renda das tranças, elas defendem que valorizar o próprio serviço é também uma forma de resistência e fortalecimento da profissão.
TEXTO POR: Catia Milene dos Santos, Brenda Cristina da Silva Barbosa, Giovanna da Silva Salgado Rabelo, Giselle Cristina Rodrigues dos Santos, Jamilly Ferreira Soares e Luan Junqueira Braga.
